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terça-feira, 24 de novembro de 2009

hoje só a morte me vestiria bem

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Vestiu preto.
Mas não sentiu-se bem.
Luto não era o que queria.
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Queria vestir a própria morte.
A tanto tempo não sentia o desejo por ela.
A tanto tempo o coração não doía tanto.
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Fez-se mentirosamente forte.
Mas mentirosamente forte foi o que havia sido esses meses.
Mentirosamente forte, era o que havia sido toda uma vida.
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Hoje queria ser fraca.
Queria ter mesmo deixado-se bater no acidente que evitou alguns momentos antes no centro da cidade.
Ao menos se naquele momento soubesse de tudo não o teria evitado.
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Na roupa preta seguiu a rotina.
Ao menos pudesse por algumas semana sumir.
Mas nem isso podia, os compromissos já estavam todos agendados.
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E essa vontade de fugir, essa vontade de sumir, essa vontade de morrer.
Chorar é pra fracos, repetia o jargão que ficou aposentado algumas semanas.
Morrer é pra perdedores, repetia a nova palavra de ordem.
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Restava vislumbrar o futuro sombrio.
E desejando a morte enfrentar a vida.
Com a alegria de farmácia recém comprada.
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Resta-lhe assumir a maturidade que quer negar.
E de uma vez por todas parar de se deixar ser criança.
De se obrigar ser criança.
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Pois se sabia de tudo desde sempre, só uma criança choraria pelo brinquedo que jogou contra a parede.
Vestiu preto e engoliu as lágrimas.
Desejou a morte. Mas que não fosse a sua.
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Engoliu as lágrimas que com aquele gosto de alto mar.
refletiam a mesma história, a mesma piada divinal
ontem mesma relembrada
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Vestiu preto
desejou a morte
e mais uma vez odiou o todo poderoso. Aquele piadista de mal gosto.

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sábado, 7 de novembro de 2009

a onda vem e...

Passei a semana no limite da exaustão, fui num treinamento do governo, que também era processo seletivo.
Ao menos era na praia.

Aproveitei que estava ali, na praia pra passear por ela.
Enquanto caminhava fiquei observando algo que parecia com algum tipo de molusco
ostras, conchinhas rechadas ou coisa assim.
Era assim, a onda trazia e eles se escondiam na areia
a onda descobria e eles se escondiam de novo
a onda descobria e eles se escondiam de novo
a onda descobria e eles se escondiam de novo
a onda descobria e eles se escondiam de novo
a onda descobria e eles se escondiam de novo
a onda descobria e eles se escondiam de novo
a onda descobria e eles se escondiam de novo
a onda descobria e eles se escondiam de novo
e assim até muito depois de eu cansar de escrever isso aqui.
Fiquei eu lá pensando,
que vida miserável né, eles vão passar a existencia deles inteira assim
a onda traz, ele se esconde
a onda mostra ele esconde
a onda revira ele cavoca e esconde
mostra, esconde
mostra, esconde
mostra, esconde
e assim até o dia de morrer.
Isso não é vida.
Pela primeira vez agradeci por ser humana, pensei nas possibilidades que temos,
lugares, gostos, cheiros, sensações, sentimentos, arrepios, dores, frios, calores, medos, alegrias, pessoas, cansaços, exaustões, felicidade, tristesa...
todas as possibilidades nos são permitidas,
Mas após muito divagar sobre o assunto concluí que não passamos de moluscos na praia
a vida vem e mostra nossas fraquezas e nós as escondemos
a vida revela a gente esconde
a vida desvenda a gente esconde
e fraqueza após fraqueza somos como os moluscos
a vida mostra a gente esconde
a vida mostra a gente esconde
a vida mostra a gente esconde
mostra, esconde
mostra, esconde...